Bansky quer mudar o mundo

Um artista britânico célebre (mas anônimo) não poderia ser mais contemporâneo e controverso: sua arte dá palpite sobre o uso do espaço urbano, a propaganda, o capitalismo, a crise de refugiados na Europa, a ocupação da Palestina por Israel e vários outros temas que mexem com a cabeça e o coração de quem olha e sente Banksy.

Suas obras (grafites) são feitas pelas ruas e sem autorização – se soubessem quem ele é, provavelmente seria preso por algumas de suas manifestações que incomodam muita gente e até chefes de estado. Por outro lado, a sua arte faz o delírio de grandes colecionadores, que são capazes de pagar milhões de dólares por um pedaço de concreto ou parede com um trabalho seu. E para isso, não se esquivam, inclusive, da “apropriação indébita”, uma vez que o artista jamais autorizou a venda dessas obras ou até mesmo a remoção delas. Para entender melhor, vale a pena assistir ao documentário Saving Banksy, no Netflix.

E aí você pode estar se perguntando: o que leva um sujeito a desprezar milhões de dólares em uma arte e optar por executá-la de uma forma que provavelmente será apagada, pintada por cima, por algum “ser sensível” como o prefeito de São Paulo ? Você pode até chegar à conclusão de que ele (Banksy) é um perdedor, só pode ser um loser – um desses caras que nasceu pra não dar certo. Tudo faria sentido, exceto pelo fato de que estamos, aqui e agora, falando dele e muita gente pelo mundo todo também está fazendo o mesmo. Sua estratégia, por mais insana que pareça, lhe conferiu reconhecimento, admiração, valor e visibilidade.

Mas não é só Banksy que trilha sua trajetória na street art. Desde os anos 70, o movimento ganha forças por todo o mundo e faz história baseado em pichações e grafite. Só para constar, a arte do grafite começou lá no Império Romano, e há até quem afirme que as pinturas rupestres seriam as precursoras do movimento.

Mas afinal, quem são estes malucos que ficam espalhando reflexão, beleza e crítica social por aí? O que pretendem? O que nós tupinambás temos com isto?

Esses homens e mulheres são cidadãos do mundo, pessoas ligadas na necessidade de inventar um novo futuro além do progresso econômico e usam a arte como meio de propagar a sua mensagem. O que pretendem com suas obras efêmeras? Provavelmente mudar o mundo.

E nós, brasileiros, o que temos a ver com isto? Tudo, porque a mesma miopia sobre a arte e o espaço urbano está assolando nosso país, apagando trabalhos de Os Gêmeos, Nina Pandolfo, Gustavo Cortelazzi e tantos outros artistas reconhecidos internacionalmente que – “otários” – embelezam nossas cidades sem ganhar nada (e correndo o risco de ir em cana).

Mas nem tudo está perdido ou será apagado. Enquanto São Paulo fortalece a alcunha de ser uma cidade cinza e manter a arte aprisionada em museus e galerias; Niterói, no Rio de Janeiro, abraça a Street Art e tem leis que protegem essa expressão artística.

Uma delas: a LEI que autoriza a execução da arte em pilares de viadutos, pontes, passarelas, pistas de skate e muros públicos selecionados. Vale destacar que fica a cargo do Poder Executivo Municipal, a produção anual de uma lista apontando as áreas grafitáveis na cidade, com atualização semestral ou sempre que solicitado pelo Conselho Municipal de Cultura. Já o outro projeto aprovado em Niterói está promulgado sob a LEI  que libera a prática do grafite nos tapumes de obras públicas da cidade. Segundo a lei mais recente (2015), o artista terá livre escolha do desenho a ser feito, mas não estão autorizadas pinturas que propagandeiem a intolerância e preconceito de qualquer natureza – neste município, a administração pública, em parte, apoia artistas de rua e suas diversas manifestações, como uma perspectiva positiva no enfrentamento da depredação dos espaços urbanos.

Contudo, a liberação para a prática de grafite nos tapumes das obras privadas niteroienses só é permitida mediante autorização por escrito do dono ou responsável legal da obra. Não é o Jardim do Éden, mas já é um começo, quem sabe a moda pegue e se espalhe por nossa Terrinha de Santa Cruz!?

Seria o grafite a verdadeira poesia concreta de campos e espaços?

E os poetas? Tem quem faça varais de poesia. Tem quem tire xerox e cole num poste. Tem quem afixa a obra no mural da escola ou empresa. A maioria só quer ser lido – como Bansky quer ser visto. Afinal, a arte emana do povo e deveria ser acessível a todos.

Se existe um futuro que não seja exclusivamente o sucesso financeiro, se existe a possibilidade de um planeta com respeito mútuo, valorização das diferenças e cooperação, se vamos vislumbrar um trajeto para atingirmos alguma beleza, para sairmos da miséria material e moral em que estamos imersos, é nestes poemas, nestes grafites, nestes refrãos de música que está o mapa do caminho.

É a arte, seu tolo. Ela vai nos distrair, nos encantar, mas sempre apontar o dedo: esta ordem não é humana, e precisa melhorar, melhorar, e muito!

Livros da Tribo com capas inspiradas em Banksy

Arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo.

Maiakovsky

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